Amâncio Pulchério de França

OUTRORA E HOJE

Meu Deus, que gelo, que frieza aquela! C. de Abreu

Meu Deus, que gelo que frieza aquela,
Que indiferença nos olhares seus
Vejo outra nuvem no horizonte de hoje,
Negra coberta nos azuis dos céus!

Tivera flores meu jardim de outrora,
Tivera rosas de perfume eterno,
Mas hoje as flores sem aroma, secas,
Parecem flores do jardim do inverno.

A primavera de meus dias, linda,
Sorria leda para o céu de anil,
E o céu faceiro desdobrando – os mantos,
Já teve as galas nas manhãs de Abril.

Hoje os cantos que tivera outrora
São tristes cr’oas de cruéis martírios
Fora ditoso, já gozara crente
Vivo perfume dos mais alvos lírios!

Sonhara encantos, deleitosos dias,
Mago castelo de ouropel sonhado;
Feliz eu fora – mas o manto espesso
Cobriu a tela desse meu passado.

*Nasce em Cuiabá; falece em Corumbá a 8 de março de 1881. Comerciante, advogado, poeta e jornalista, colaborou em vários jornais e revistas, usando o pseudônimo de Palmiro.

Nenhum comentário: