Lobivar Matos

HOMENS E PEDRAS

O encarregado da pedreira, um sujeito forte,
cara de português e de verdugo,
dá uma volta pelo rancho de madeira
e, em seguida, o sino badala
chamando os operários para a luta.

Pobres operários! Ignorantes, inconscientes, rudes
voltam à refrega. E, no espaço de um minuto,
onde o silencio era profundo, agora
o barulho é medonho,
de aturdir,
de ensurdecer...

Só se ouve o ruído fino e frenético do aço que geme
na carne dura e rija das pedras lascadas.

De um lado, os britadores,
num ritmo desordenado,
vão quebrando,
esmigalhando,
esfarinhando,
nos seus dentes robustos,
lascas e lascas
das pedras dinamitadas na montanha.

De outro lado caminhões carregados,
esburacando a terra, passam, rangendo,
em disparada, como loucos infernais.
Lá em cima, no alto do morro
côxo
dois homens trabalham, zombando da morte.

Aqui mais abaixo, com a ajuda de alavancas enormes,
braços poderosos movem massas de pedra,
que rolam,
pesadas,
enchendo o ar
de faíscas
fuzilantes
de fogo.

De vez em quando um mulato descansa o malho
e passa o dedo grosso na testa enrugada.
Ouve-se, então, um tinido de aço
que batesse, em cheio, num bloco de pedra.
É o suor do mulato que se cristaliza em aço.

Agora é findo o trabalho... Silencio!
Mas eu continuo a ver
aquelas pedras rolando e se esmigalhando, aqui em baixo,
aqueles homens, lá em cima, zombando da morte...

Agora é finda a refrega... Silencio!
Mas eu continuo a ouvir
o ruído fino e frenético do aço que geme
na carne dura e rija das pedras lascadas.

Silêncio!...
Silêncio!...

O sol é um martelete de ouro perfurando o espaço!

Lobivar Matos (1914-1947)

Um comentário:

Família Matos disse...

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