Márcia Turi Marques

Palavras em Sangria


Por que grita, em versos de lampejo,

em noite de alma escurecida, o caboclo cativo em sua terra

enquanto morre o gado de seu sustento, por quê?


Por que flamejam em rimas de cantoria

as ladainhas de procissão em Ação de Graças,

numa vida que se debulha em rosário rezado nas mãos enrugadas,

enquanto a dor do dia faz a sangria da alma sofrida, por quê?


Por que correm, nas veias informatizadas,

as palavras em verso e prosa de poetas emaranhados

nas redes do anonimato, enquanto se derramam suores em asfalto, por quê?


Porque Poesia é seiva arrancada do “ser-tão”;

é o clamor do filete de água das veredas,

a única e mais autêntica felicidade ( clandestina?) do caboclo,

sua única e mais autêntica propriedade: a palavra.



Escreve, em versos Moirões ou em Sextilhas acertadas,

sua vida como planta teimosa no sertão

que brota do pó que sobrou da seca.



A poesia sangra os pés dos romeiros;

é a própria graça alcançada nas palavras em reza.


A poesia cura a dor do desalento, nos versos das cantorias de São Gonçalo,

nas rimas sofridas de Chico Rei, no Congado.


A poesia está nos pilares da fé de um povo em ação de graças,

com farinha e água.



Versos “paridos” nos caminhos dos séculos, de escravos da vida,

no cativeiro no dia sofrido.

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