Gênese

Rompe-se a barragem de meus limites
Sandices não me fazem mais escrever
Nem crer que tudo se faz por medida
Ferida, vida em eterno corrigir.

Nada. Arranquei meus olhos com os dedos
Enquanto pensava e achava pensar
Deixei que a luz da cegueira absoluta
Abrupta chegasse ao cérebro sem intermédios

Lacrei minha boca e minhas narinas
Para que o ar tornasse respirável
E me oxigenasse de não-pensamentos
A morta consciência que me vem flagrar

Amarrei minhas mãos e cortei meus dedos
Para que nada mais pegasse em vão
A não ser a água do rio dos vazios
Que começam a escorrer por entre-mim

Cortei meus pés em rápida cinestesia
Para que o único caminho a seguir
Em plena estrada descoberta
Fosse a para dentro de mim

Desnudei-me das roupas encardidas de carne
De um óbvio corpo sóbrio, inexpressivo
Deixei-me estar apenas como tronco
Para que tudo cresça fora de ordem.


Márcia Turi / 2009

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