Há Natal e Há Natais

Existe, sim, um natal diferente do nosso.
Diferente de tudo aquilo que podemos apossar
com nossos olhos vorazes, dentro de uma casa
que difere de outras tantas casas de uma cidade.

(Essa diferença está na felicidade da fartura
àquele que não tem pão, o que muito tem é privação)

O natal do negro, negro, sempre negro,
por exemplo, é diferente do branco.
Como também é diferente o natal
dos que viveram das sombras nos porões
aos daqueles que sofreram suas torturas;
Embora contemporâneos não são cúmplices neste natal.

É, ainda, diferente o natal
que se levanta em duros tragos de cachaça,
em companhia do cansaço, fome, filhos e mulher,
e a certeza de que não está adiando um natal melhor;
daqueles à base de champanhe, vestindo chambre
ao lado do poder chanceler e dólares.

O natal do índio, que se tornou na marra cristão,
difere, em essência, do cidadão terno e gravata,
esquivo nos olhos, medo e avareza de ladrão.
Que outro ladrão terá 100 natais de perdão.

Como é avesso o natal das mulheres
que nunca sentem orgasmo,
foram estupradas em longínquas noites escuras
e procriam e criam como se isso fosse sina
daquelas que se perfumam e, mesmo no começo,
vivem o fim de suas vidas esposas
de uso exclusivo em serviço.

Como é diferente o natal
do homem doente ao do homem enfermo,
do homem demente ao do homem loquaz,
do homem mendigo ao homem subserviente,
do homem bandido ao do homem marginal,
do homem animal ao do homem falido…

E o natal se diferencia anualmente
em toda América Latina Operária que trabalha,
na esperança comum de um amanhã diferente,
e por que há no ventre de Maria
- concepção do amor pleno -
uma criança que vai se chamar Jesus Allende.

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